Um dos primeiros desafios encontrados por municípios que implantam ou ampliam o Serviço de Família Acolhedora é uma pergunta aparentemente simples: onde encontrar famílias dispostas a acolher?
A resposta costuma levar imediatamente à comunicação. Criam-se campanhas, peças para redes sociais, entrevistas, palestras, panfletos e eventos. Tudo isso pode ser importante. Mas a experiência mostra que mobilizar famílias para o Serviço de Família Acolhedora é muito mais do que divulgar uma oportunidade.
Uma campanha pode gerar curiosidade. Pode trazer inscrições. Pode fazer o telefone tocar.
Isso ainda não significa que o município esteja conseguindo mobilizar famílias preparadas para compreender o que significa acolher uma criança ou adolescente temporariamente.
No SFA, quantidade de interessados e qualidade da mobilização não são necessariamente a mesma coisa.
A comunicação precisa realizar uma tarefa mais difícil: aproximar pessoas e, ao mesmo tempo, ajudá-las a compreender a responsabilidade que estão considerando assumir.
Por isso, uma estratégia de mobilização precisa combinar pelo menos três dimensões: comunicação clara, informação correta e seleção responsável.
Quando essas três dimensões caminham juntas, a mobilização deixa de ser apenas uma campanha e passa a ser parte da própria metodologia do serviço.
Neste artigo
“Uma boa campanha não esconde as partes difíceis do acolhimento: ela ajuda cada família a avaliar, com informação correta, se tem condições de assumir essa responsabilidade.”
1. Mobilização não é publicidade: é parte do trabalho técnico
Uma campanha comercial geralmente procura reduzir objeções e estimular uma decisão rápida. No Serviço de Família Acolhedora, a lógica precisa ser diferente.
O município não deveria tentar convencer qualquer pessoa a se tornar família acolhedora. Precisa criar condições para que pessoas e famílias conheçam o serviço, entendam suas responsabilidades e avaliem, com seriedade, se possuem disponibilidade para percorrer esse caminho.
Isso significa que uma boa comunicação não deve esconder as partes difíceis.
O acolhimento envolve vínculo. Envolve adaptação. Pode envolver comportamentos desafiadores, acompanhamento de saúde, escola, visitas à família de origem e mudanças importantes na rotina da casa.
E envolve despedida.
A criança ou adolescente acolhido não está entrando naquela família para necessariamente permanecer nela. O acolhimento é temporário. Quando houver condições seguras, o trabalho poderá caminhar para a reintegração à família de origem ou extensa. Em outras situações, o Sistema de Justiça poderá definir outros encaminhamentos.
Esse entendimento precisa aparecer desde os primeiros contatos.
A própria metodologia formativa utilizada pela ACRIDAS conecta mobilização, seleção, habilitação e formação continuada, incluindo não apenas campanhas e objeções comuns, mas também responsabilidades, manejo de crises, relação com a família de origem e preparação para transições.
Assim, a mobilização já começa educando.
2. A primeira mensagem precisa explicar corretamente o que é uma Família Acolhedora
Uma das maiores dificuldades da comunicação sobre o SFA é que muitas pessoas nunca ouviram falar do serviço. Outras já ouviram o nome, mas ainda o confundem com adoção.
Por isso, a campanha não pode pressupor que o público já entende o tema.
Antes do convite "seja uma família acolhedora", precisa vir a informação: o que significa ser uma família acolhedora?
Em linguagem simples, é importante explicar que famílias previamente selecionadas, capacitadas e acompanhadas recebem temporariamente em sua casa crianças ou adolescentes que precisam ser afastados de sua família por uma medida de proteção.
Essa família oferece cuidado, convivência familiar, rotina, segurança e afeto durante o período de acolhimento.
Mas ela não substitui automaticamente a família de origem.
E o acolhimento familiar não deve ser apresentado como caminho para adoção.
Essa diferença precisa aparecer desde a campanha, e não apenas durante a capacitação.
Quando a informação fica para depois, o serviço corre o risco de receber pessoas que chegam motivadas por expectativas incompatíveis com sua finalidade.
Quando a informação correta aparece desde o início, parte da própria seleção acontece naturalmente: algumas pessoas descobrirão que aquele não é o caminho que buscavam. Outras perceberão que desejam conhecer melhor.
As duas respostas são legítimas.
3. Antes de comunicar, o município precisa saber exatamente o que está oferecendo
Outro erro recorrente é iniciar uma grande campanha sem que o próprio serviço esteja preparado para responder às perguntas que surgirão.
Onde a pessoa se inscreve? Quem pode participar? Existe idade mínima? Pessoa solteira pode ser família acolhedora? Precisa ter filhos? Pode trabalhar fora? Como funciona o apoio financeiro previsto no município? Quanto tempo uma criança pode permanecer na casa? Quem acompanha a família? O que acontece se houver uma dificuldade durante a madrugada? É possível escolher a idade da criança? Como funcionam grupos de irmãos? Haverá contato com a família de origem? Como funciona a despedida?
Quem deseja ser família acolhedora terá dúvidas. E isso é saudável.
O problema aparece quando a campanha é mais organizada que o próprio serviço.
Antes da divulgação, a equipe precisa alinhar respostas, critérios, canais de contato e próximos passos. As informações precisam estar de acordo com a regulamentação e com o desenho específico daquele município.
Não se deve copiar automaticamente critérios de outra cidade. A legislação local, a organização do serviço e as decisões da gestão precisam estar refletidas na comunicação.
Se três profissionais dão três respostas diferentes à mesma pergunta, a mobilização perde credibilidade.
Por isso, a campanha começa internamente, com o alinhamento da equipe.
4. Informação correta seleciona antes mesmo da inscrição
Existe uma tendência de avaliar uma campanha pelo número de formulários preenchidos. Para o SFA, esse indicador é insuficiente.
Imagine duas campanhas.
A primeira recebe 500 inscrições. Quando começam as reuniões de orientação, 400 pessoas descobrem que Família Acolhedora não é adoção e abandonam o processo.
A segunda recebe 120 inscrições. A maior parte dos interessados já chegou compreendendo a temporalidade, o acompanhamento técnico e a possibilidade de reintegração familiar.
Qual campanha funcionou melhor? Provavelmente a segunda.
A comunicação pode funcionar como um primeiro filtro ético, sem excluir ou selecionar pessoas arbitrariamente. Ela faz isso quando apresenta com clareza a realidade do serviço.
Quanto mais transparente for a mensagem inicial, menor a chance de criar falsas expectativas.
Isso também protege o interessado. Uma pessoa pode se emocionar com a possibilidade de acolher uma criança, mas precisa ter acesso às informações necessárias para avaliar o impacto dessa decisão sobre sua casa, seu relacionamento, seus filhos, seu trabalho e sua rede de apoio.
Mobilização responsável não vende uma experiência. Apresenta uma responsabilidade.
5. A campanha precisa combater mitos sem transformar o SFA em propaganda
Dúvidas que a campanha precisa enfrentar
- Família Acolhedora é adoção?
- Preciso ter filhos?
- Posso trabalhar fora?
- É possível criar vínculo?
- A família recebe acompanhamento?
A ausência de informação cria espaço para muitos mitos.
"Só casais podem acolher." "Precisa ser rico." "Família acolhedora adota a criança depois." "Não pode criar vínculo porque a criança vai embora." "Só pessoas que não têm filhos podem participar." "Vou precisar resolver sozinho todos os problemas da criança." "Depois que a criança chegar, a equipe desaparece."
Os critérios concretos variam conforme a regulamentação e o desenho municipal. Por isso, a comunicação nunca deve responder genericamente aquilo que depende de uma norma local.
Mas o serviço pode identificar quais dúvidas aparecem com frequência e produzir conteúdo específico para cada uma delas.
Uma estratégia interessante é transformar dúvidas em pauta permanente.
Em vez de uma única postagem dizendo "inscrições abertas", o município pode criar uma sequência educativa: "O que é Família Acolhedora?", "Família Acolhedora é adoção?", "Quem acompanha a família durante o acolhimento?", "Como funciona a preparação antes da chegada da criança?", "É possível criar vínculo sabendo que haverá despedida?", "Qual é o papel da família de origem?", "O que acontece depois da inscrição?".
Cada conteúdo aumenta o repertório da comunidade.
A campanha deixa de depender exclusivamente de impulsionamento e passa a construir cultura de acolhimento familiar no território.
6. Não é necessário explorar a imagem de uma criança para mobilizar adultos
Campanhas relacionadas à infância frequentemente recorrem a fotografias emocionais de crianças, histórias de sofrimento ou frases desenhadas para gerar culpa. No SFA, essa estratégia merece cuidado especial.
Uma criança acolhida possui história, identidade, vínculos familiares e direito à privacidade. Sua experiência não deve ser convertida em material publicitário para aumentar inscrições.
É possível produzir uma campanha forte sem expor vulnerabilidade.
Pode-se mostrar adultos em formação. Famílias conversando. Profissionais explicando o serviço. Encontros comunitários. Rodas de conversa. Materiais educativos.
A própria trajetória registrada pela ACRIDAS demonstra essa possibilidade. O Relatório de Impacto de 2025 registra capacitações para novas famílias acolhedoras, rodas de conversa, apresentações territoriais do SFA e formação continuada.
Essas são imagens muito mais coerentes com uma campanha educativa. Elas comunicam que acolher envolve preparação.
7. O território inteiro pode participar da mobilização
Redes sociais são importantes, mas não devem ser o único canal.
Famílias potencialmente interessadas vivem em territórios concretos. Frequentam escolas, unidades de saúde, empresas, universidades, organizações comunitárias, espaços religiosos, associações de bairro, equipamentos públicos e grupos profissionais.
Por isso, o município pode mapear os espaços de confiança existentes na comunidade.
O objetivo não é simplesmente distribuir panfletos. É fazer o tema circular.
Apresentações presenciais do SFA podem ser especialmente importantes porque permitem perguntas. A pessoa escuta o conceito, relaciona a informação à própria vida e consegue tirar dúvidas com alguém que conhece o serviço.
Também ampliam o número de pessoas capazes de explicar corretamente o acolhimento familiar.
Uma professora que participa de uma apresentação pode conversar sobre o assunto com outras famílias. Um profissional da saúde pode indicar o canal oficial do município. Uma liderança comunitária pode perceber que estava confundindo acolhimento com adoção. Uma empresa pode disponibilizar espaço para uma conversa com seus colaboradores. Uma universidade pode aproximar estudantes e profissionais. Uma organização da sociedade civil pode ajudar a divulgar informações corretas.
Em 2025, por exemplo, os registros da ACRIDAS incluem apresentações do SFA em regionais, diálogo entre SFA, FAS e Projeto Dindo e atividades de formação continuada com famílias acolhedoras. Também houve apresentação do serviço ao Rotary Club e nova capacitação de famílias.
Isso ilustra uma lógica importante: mobilização territorial é construída por repetição, presença e relacionamento.
8. Uma campanha precisa ter uma jornada clara para o interessado
Da informação à habilitação
- 01Conhecer
- 02Demonstrar interesse
- 03Receber informação
- 04Encontro de orientação
- 05Inscrever-se
- 06Seleção
- 07Formação
- 08Habilitação
- 09Acompanhamento
Outra questão simples, mas decisiva: o que acontece depois que alguém vê a campanha?
Se a resposta for apenas "preencha este formulário", existe uma grande lacuna.
Cada etapa tem uma finalidade.
A campanha desperta interesse. O site ou material informativo oferece explicações iniciais. O encontro de orientação aprofunda a compreensão. A inscrição formaliza o desejo de participar da seleção. Entrevistas e visitas permitem avaliação técnica. A formação prepara para responsabilidades concretas. A habilitação ocorre somente quando o processo previsto pelo serviço é concluído. O acompanhamento continua depois disso.
Quando essa jornada está clara, o interessado sabe o que esperar.
Também reduz aquela sensação de ter enviado um formulário para um lugar desconhecido e nunca mais receber retorno.
9. A reunião de apresentação não deve ser uma palestra para convencer
Uma das ferramentas mais úteis de mobilização pode ser um encontro informativo. Mas sua função precisa estar clara.
Não é "fechar inscrições". É oferecer informação suficiente para uma decisão mais consciente.
O encontro pode explicar o que é o SFA, diferenças em relação à adoção, caráter temporário, responsabilidades da família acolhedora, acompanhamento da equipe, relação com a família de origem, rotina do acolhimento, processo seletivo, formação e desligamento.
É também um espaço para dúvidas difíceis. "E se eu me apegar?" "E meus filhos?" "E se eu perceber que não consigo?" "Como é entregar uma criança depois de meses de convivência?" "Posso manter contato depois?" "Como lidar com a família de origem?"
Perguntas assim não devem ser consideradas resistência ao programa. Elas demonstram que a pessoa está tentando dimensionar a responsabilidade.
Um encontro de mobilização de qualidade não elimina as dúvidas com respostas excessivamente positivas. Ele cria um ambiente no qual elas possam ser tratadas com maturidade.
10. A seleção começa pela motivação, mas não termina nela
Querer ajudar é importante. Não é suficiente.
A seleção existe exatamente porque o acolhimento envolve uma criança ou adolescente em situação de alta vulnerabilidade e precisa ser realizado em condições seguras.
A proposta técnica de formação da ACRIDAS contempla critérios de elegibilidade, prevenção de conflitos de interesse, inscrição, entrevistas, visitas domiciliares, checagens, parecer técnico e avaliação da compatibilidade com os perfis das crianças e adolescentes.
Isso mostra que mobilização e seleção precisam conversar.
Durante a seleção, a equipe pode conhecer melhor as motivações da família, sua dinâmica, compreensão sobre o acolhimento, disponibilidade, rede de apoio e capacidade de lidar com situações complexas.
Também é necessário que as pessoas que vivem naquela casa compreendam a decisão.
Um adulto pode estar altamente motivado, enquanto seu companheiro ou seus filhos estão inseguros ou contrários à ideia. Isso precisa aparecer antes do primeiro acolhimento.
A visita domiciliar, portanto, não deveria ser entendida como simples fiscalização da residência. É uma oportunidade de compreender o contexto familiar.
“É melhor perder uma inscrição durante a seleção do que iniciar um acolhimento sem preparação.”
11. Selecionar bem também significa saber dizer "ainda não"
Uma política responsável não mede sucesso apenas pelo número de famílias habilitadas.
Em determinados casos, a conclusão adequada de um processo pode ser que aquele não é o momento ideal para a família acolher.
Talvez seja necessário amadurecer expectativas. Talvez existam mudanças importantes acontecendo na casa. Talvez um membro da família não esteja de acordo. Talvez a motivação esteja fortemente relacionada ao desejo de adoção. Talvez a pessoa ainda não compreenda a possibilidade da despedida. Talvez sejam necessárias outras conversas.
Isso não precisa ser tratado como fracasso. A seleção existe para proteger.
E a família que não está preparada hoje pode, em determinadas situações, reorganizar sua realidade e retornar posteriormente, conforme os critérios do serviço.
Pressionar uma habilitação apenas porque o município precisa aumentar rapidamente o número de famílias cria um risco muito maior: uma ruptura durante o acolhimento.
12. A formação não começa depois da seleção: ela acompanha todo o processo
A mobilização apresenta. A orientação aprofunda. A seleção conhece. A formação prepara.
Essas etapas são diferentes, mas não precisam ser isoladas.
Desde a primeira comunicação, a pessoa já está aprendendo sobre acolhimento familiar. Depois, a formação inicial amplia esse conhecimento.
Temas como direitos, papel da família acolhedora, limites e responsabilidades, rotina, escola, saúde, convivência comunitária, manejo de situações complexas, apoio técnico, vínculo e transições fazem parte do desenho de formação utilizado pela ACRIDAS.
Isso é essencial porque a família precisa chegar ao primeiro acolhimento sabendo que não estará apenas oferecendo um quarto e alimentação. Estará entrando em uma relação de cuidado acompanhada por um serviço público.
Também precisa compreender que preparação não termina na habilitação. A formação continuada pode ajudar famílias a refletir sobre situações reais depois que começam a acolher.
O Relatório de Impacto da ACRIDAS registra justamente atividades de capacitação continuada com famílias acolhedoras, além de novas formações.
13. Famílias acolhedoras experientes podem ajudar a comunidade a compreender o serviço
Quando realizado com cuidado, o relato de quem já viveu a experiência pode ser uma ferramenta importante de mobilização.
Uma família acolhedora consegue explicar aspectos que uma peça institucional dificilmente comunica: como foi conversar com os filhos antes de acolher? Como aconteceu a primeira chegada? Quais medos surgiram? Como foi pedir ajuda à equipe? Como a família aprendeu a lidar com vínculo e despedida?
Esse tipo de relato aproxima o serviço da realidade.
Mas existem limites éticos.
A história da criança não pertence à família acolhedora para ser exposta publicamente. Não é necessário contar detalhes sobre violência, abandono, uso de drogas, situação judicial ou comportamento para tornar um depoimento interessante.
A família pode falar da própria transformação e dos próprios aprendizados sem revelar aquilo que pertence à intimidade da criança e de sua família de origem.
A comunicação responsável protege inclusive depois que o acolhimento termina.
14. Responder rápido também faz parte da mobilização
Existe um aspecto pouco glamouroso, mas decisivo: atendimento.
Uma pessoa vê uma reportagem sobre Família Acolhedora, se identifica, procura o contato oficial e envia uma mensagem. Se recebe resposta três semanas depois, o momento de interesse pode ter passado.
A mobilização precisa prever capacidade de atendimento.
Não necessariamente a equipe precisa responder individualmente todas as dúvidas no mesmo instante. Mas é possível organizar uma resposta inicial clara: "Recebemos seu interesse." "Aqui está um material explicando o serviço." "A próxima reunião de apresentação acontecerá em determinada data." "Estes são os passos do processo." "Se desejar continuar depois da apresentação, você receberá as orientações para inscrição."
Automatizar parte da comunicação pode ajudar, desde que não transforme o processo em atendimento impessoal.
Um sistema simples de acompanhamento de interessados também permite que o município saiba quantas pessoas chegaram, de onde vieram e em que etapa estão.
15. O município precisa medir mais do que alcance de postagem
O que acompanhar em uma estratégia de mobilização
- Alcance
- Interessados
- Reunião informativa
- Inscrições
- Seleção
- Formação
- Famílias habilitadas
- Famílias acompanhadas
Curtidas não habilitam famílias. Visualizações também não.
Uma estratégia de mobilização pode acompanhar diferentes indicadores: quantas pessoas tiveram contato com a campanha; quantas solicitaram informações; quantas participaram de encontros de apresentação; quantas decidiram iniciar a seleção; quantas continuaram após as primeiras entrevistas; quantas chegaram à formação; quantas concluíram a formação; quantas foram habilitadas; quantas permanecem disponíveis para acolhimento; por quais canais chegaram as famílias que efetivamente concluíram o processo.
Essas informações ajudam a melhorar a estratégia.
Imagine que uma campanha paga nas redes sociais trouxe 1.000 contatos e apenas uma família habilitada, enquanto quatro pequenas apresentações comunitárias trouxeram 30 interessados e seis famílias habilitadas. Isso muda a decisão de investimento.
Por isso, o SFA precisa olhar para a mobilização como um processo, não como uma peça.
16. Mobilização precisa ser permanente
Outro erro é realizar uma grande campanha somente quando todas as famílias disponíveis já estão acolhendo. Nesse momento, o serviço passa a agir sob pressão.
Mobilização funciona melhor quando é contínua.
Enquanto algumas famílias estão em processo seletivo, outras podem estar iniciando a formação. Algumas estarão habilitadas e disponíveis. Outras já estarão acolhendo. E outras poderão estar vivendo um período de pausa depois de um desacolhimento.
Essa diversidade cria maior sustentabilidade. Também permite respeitar o tempo das famílias.
Um serviço que depende de duas ou três famílias disponíveis pode acabar buscando encaixar um acolhimento onde talvez não exista compatibilidade suficiente.
Manter uma base de famílias formadas e acompanhadas amplia a capacidade de decisão técnica.
A necessidade da criança não deveria ser adaptada à única família disponível sempre que for possível organizar alternativas mais adequadas.
17. A comunicação precisa continuar depois que a família é habilitada
É comum pensar em comunicação apenas como divulgação externa. Mas existe também uma comunicação interna do serviço.
A família acolhedora precisa saber com quem falar. Precisa compreender alterações de fluxo. Precisa receber informações sobre formações. Precisa sentir que dúvidas podem ser apresentadas sem julgamento. Precisa saber como agir em situações urgentes. Precisa receber orientação diante de mudanças importantes no caso.
A sensação de abandono técnico depois da habilitação prejudica não apenas aquela família, mas a própria mobilização futura.
Famílias acolhedoras conversam entre si e com sua comunidade. Uma experiência acompanhada tende a produzir confiança. Uma experiência marcada por ausência de suporte pode afastar outras pessoas.
Portanto, a melhor campanha do próximo ano também é a qualidade do acompanhamento oferecido hoje.
18. O que uma campanha de Família Acolhedora deveria comunicar
- 01
O que é o Serviço de Família Acolhedora
- 02
Que acolhimento familiar não é adoção
- 03
Que o cuidado é temporário
- 04
Que existe processo de inscrição, seleção, formação e habilitação
- 05
Que a família não atua sozinha: há acompanhamento profissional
- 06
Que a história e os vínculos da criança precisam ser respeitados
- 07
Que a família de origem faz parte do trabalho do serviço
- 08
Que vínculo precisa ser compreendido dentro da temporalidade
- 09
Que despedidas e transições fazem parte do acolhimento
- 10
Onde obter informações oficiais
- 11
Qual é o próximo passo para quem deseja conhecer melhor
Antes de publicar uma campanha, vale verificar se qualquer pessoa que encontrar aquele conteúdo consegue compreender alguns pontos essenciais.
Se uma peça consegue transmitir tudo isso de forma acessível, ela está fazendo mais do que captar inscrições. Está fortalecendo a compreensão pública sobre o acolhimento familiar.
A pergunta não é "como conseguir mais famílias?" Talvez a pergunta mais útil para o município seja: como fazer com que mais pessoas compreendam corretamente o Serviço de Família Acolhedora e possam avaliar, de forma consciente, se têm condições de participar?
A diferença parece pequena. Na prática, muda toda a estratégia.
No primeiro caso, o objetivo vira volume. No segundo, o objetivo é construir conhecimento, confiança e disponibilidade real.
Isso leva a campanhas mais educativas. Leva a reuniões de orientação. Leva a presença territorial. Leva a respostas mais claras. Leva a seleção responsável. Leva a formação.
E ajuda a reduzir expectativas equivocadas que poderiam aparecer somente quando uma criança já estivesse dentro de uma casa.
A experiência prática também ensina
A experiência registrada pela ACRIDAS ao longo de 2025 mostra ações que não ficaram limitadas a uma única campanha de recrutamento. Houve capacitação para novas famílias acolhedoras, rodas de conversa, formação continuada e apresentações do SFA em diferentes espaços comunitários e territoriais.
Em outros momentos do ano aparecem encontros de articulação entre SFA, FAS e Projeto Dindo, apresentações em regionais de Curitiba, capacitações continuadas e apresentação do serviço ao Rotary Club.
Essa diversidade de ações ajuda a compreender a mobilização como ela realmente acontece: não em uma postagem isolada, mas no contato repetido entre serviço e comunidade.
Quanto mais o território conhece o SFA, mais fácil se torna encontrar pessoas capazes de considerar essa responsabilidade.
Mas conhecimento público precisa caminhar junto com capacidade técnica.
Por isso, municípios que desejam fortalecer seu número de famílias acolhedoras precisam olhar para toda a cadeia: comunicar, informar, acolher o interesse, orientar, selecionar, formar, habilitar, acompanhar e continuar mobilizando.
Quando um elo dessa cadeia falha, todo o serviço sente.
Mobilizar com responsabilidade também é proteger
Uma campanha de Família Acolhedora não deveria ser medida pelo número de pessoas que ela convenceu.
Seu valor aparece quando uma pessoa chega ao processo sabendo que acolher não é adotar. Quando um casal conversa seriamente com os filhos antes de se inscrever. Quando alguém percebe, durante a reunião informativa, que ainda não é o momento. Quando uma família decide continuar mesmo sabendo que haverá vínculo e despedida. Quando a equipe consegue selecionar sem estar pressionada pela falta absoluta de candidatos. Quando famílias habilitadas sabem que terão acompanhamento. Quando a criança encontra uma casa que não foi recrutada apenas pela emoção de uma campanha, mas preparada para compreender sua história.
Esse é o ponto central: mobilização responsável não procura qualquer família disponível. Procura construir uma comunidade que compreenda o acolhimento familiar e, dentro dela, identificar famílias que possam exercer esse cuidado com segurança, responsabilidade e acompanhamento.
É um processo mais lento do que simplesmente impulsionar um anúncio. Mas também é muito mais consistente.
Porque no Serviço de Família Acolhedora, a pergunta final nunca deveria ser apenas quantas famílias uma campanha conseguiu alcançar. A pergunta precisa continuar sendo: estamos preparando famílias para acolher uma criança sem apagar sua história, seus vínculos e seu direito de seguir o caminho definido para sua proteção?
Quando a resposta orienta a comunicação, a mobilização deixa de ser marketing. Ela se torna parte da proteção.
ACRIDAS EDUCA para municípios
Seu município precisa mobilizar, selecionar e formar famílias acolhedoras?
O ACRIDAS EDUCA apoia equipes e municípios na comunicação sobre o Serviço de Família Acolhedora, na organização da jornada do interessado, na seleção responsável e na formação inicial e continuada das famílias.
